Salvador - Bahia
 
Pronunciamento de Luiz Alberto sobre o PL dos Campos Maduros

 

O SR. LUIZ ALBERTO (PT-BA) - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, queria aqui fazer um apelo à Agência Nacional de Petróleo. 

Em 2006, o 8º leilão foi suspenso por decisão judicial, uma liminar, ainda durante o processo de oferta dos blocos. E, por informações que considero bastante confiáveis, a questão judicial caiu, foi retirada.

Portanto, a ANP, que já tinha leiloado alguns blocos, cerca de 28, na região conhecida como Bacia de Tucano Sul, na Bahia, precisaria assinar os contratos com as operadoras.
Sr. Presidente, queria pedir à ANP que assinasse esses contratos. A ANP imagina que esses contratos só poderiam ser definidos depois do novo marco regulatório do pré-sal, o que trará um grande prejuízo de investimento naquela região da Bahia. É uma região pobre. De investimento total, durante 4 anos, totalizará 410 milhões de dólares na região, gerando empregos, cerca de 1.250 entre empregos diretos e indiretos; gerando renda. Atingirá os municípios de Inhambupe, Sátiro Dias, Biritinga, Olindina, Itapicuru, Nova Soure, Cipó e Araci.

Portanto, Sr. Presidente, peço que a ANP reconsidere essa posição e assine contrato com as operadoras que participaram do leilão e ganharam aqueles blocos.

 

Eu gostaria de finalizarparabenizando mias uma vez a PETROBRAS, que bateu novo recorde de produção de petróleo no mês de abril, totalizando a produção de 2 milhões, 32 mil, 620 barris por dia. Inclusive, Sr. Presidente, é bom salientar a grande contribuição dos campos terrestres, que mantiveram uma produção estável, graças aos grandes investimentos que a PETROBRAS tem desenvolvido para aumentar a vida útil dos campos maduros.

Quero chamar a atenção -- já chamei a atenção uma vez aqui neste Plenário -- para o fato de que foi aprovada aqui, sem a percepção das Sras. e dos Srs. Deputados, uma emenda que obriga a PETROBRAS a entregar os campos terrestres às empresas privadas, que não terão condições de manter aqueles campos. Essa emenda foi aprovada aqui. Está no Senado. Espero que o Senado retire essa emenda. Se não retirar, faço um apelo ao Presidente Lula para que vete em nome da PETROBRAS, em nome do povo brasileiro.

Muito obrigado, Sr. Presidente.

 

Luiz Alberto

Deputado Federal (PT/BA)

O lugar do negro no Brasil

Por: Isac Afonso dos Santos Filho
*Bacharel em Administração e Assessor Político do Deputado Federal Luiz Alberto/PT.

Os lugares ocupados pelos negros e descendentes de africanos na sociedade brasileira no que tange o acesso aos bens sociais como educação, saúde e ocupação, perpassam necessariamente por uma reflexão sobre a História do Brasil, desde a sua colonização pelos portugueses quando da institucionalização da mão-de-obra escrava até os dias atuais. Ao longo desse percurso histórico pode-se identificar de que modo ocorreu a integração destes sujeitos na economia e na sociedade brasileira.

Desde a pseudo abolição da escravatura, em 13 de maio de 1888, quando os negros escravizados se tornam "livres" para viverem na sociedade como sujeitos, já havia um elevado número de ex-escravos que se encontravam livres nas cidades, porém, em condições mínimas de sobrevivência, não havendo por parte do Estado brasileiro nenhuma ação para a integração desta população à economia nacional. Ao contrário, uma evidente tentativa de embranquecimento da sociedade por meio da divulgação da superioridade do trabalho branco europeu, o que significou uma total ausência de perspectivas de inserção dessa população negra na economia, seja trabalhando como cidadãos comuns, seja plantando em terras próprias ou ocupando postos sociais na política, na educação, entre outros.

Em 1890, dados do censo expressam um esforço nacional para promover o embraquecimento do país através da imigração, concedendo benefícios ao trabalhador europeu recém-chegado ao país, enquanto para os negros escravizados, que já estavam aqui há cerca de 300 anos, a situação era diametralmente oposta, de forma que nenhuma alternativa era oferecida pelas autoridades à população sem emprego, uma multidão de negros libertos, índios e mestiços.

No que se refere à evolução da economia agrícola do Brasil, pode-se observar que, nas primeiras iniciativas dos proprietários de terras em busca da melhoria das plantações e da competitividade no mercado internacional, a mão de obra africana e dos afro-descendentes foi preterida sob o argumento de que imigrantes europeus teriam melhor preparo para lidar com a nova tecnologia característica das lavouras de café. Nesse momento da história do trabalho no Brasil, os negros foram excluídos do processo de produção em favor da absorção dos imigrantes brancos, que vieram para o país fugindo da 1ª Guerra Mundial e foram recrutados para atuar nas plantações cafeeiras e nas pequenas organizações fabris que surgiram na segunda metade do século XIX, como trabalhadores assalariados.

Analisando essa construção dos papeis ocupados pelos negros na sociedade, podemos observar nas relações de trabalho no Brasil, a repercussão das ideologias racistas construídas nas relações sociais. Com isso, os estereótipos de inferior do ponto de vista intelectual, incapaz, entre outros, permaneceram arraigados no imaginário coletivo, prejudicando a inserção dos afro-descendentes em instâncias sociais estratégicas para o seu desenvolvimento humano, tais como: o trabalho, a educação, postos de comando no poder público, na área de saúde e desenvolvimento tecnológico.

O relatório publicado pelo DIEESE em 2001 aponta o mercado de trabalho como a esfera onde aparece com maior evidência a eficiência dos mecanismos discriminatórios no Brasil, bem como sua forma sutil de produzir efeitos. Disfarçados por fatores aparentemente objetivos, oriundos de novas e tradicionais exigências produtivas, velhas questões permanecem: os negros estão mais sujeitos ao desemprego, conservam-se mais tempo nesta situação e, quando tem trabalho, são os postos de trabalho de menor qualidade, status e remuneração que conseguem.

Assim, temos como conseqüência histórica, uma significativa diferença na participação dos cidadãos brancos e negros no "mercado de trabalho", onde a população negra encontra-se em notável desvantagem, estando sub-representados, principalmente, nas atividades consideradas de maior prestígio, ou de melhor remuneração.

O fato é que, o negro saiu das senzalas para ocupar as invasões e favelas, espaços geográficos das cidades, privados de bens e serviços públicos adequados, ou, nas periferias, que distam dos centros e contam com bens e serviços públicos precários, bem inferiores aos encontrados nos bairros "ditos nobres".

Porém, as mais perversas conseqüências do racismo brasileiro são a auto- rejeição e a privação das aspirações, que operam no âmago da psique de negros e negras que acreditam e aceitam este lugar (não só social, mas também conceitual) atribuído pelos brancos aos negros, apesar de toda uma história de luta e resistência dos movimentos negros, que trabalham por uma Consciência. Esse lugar social tem sido demarcado não só por aspectos geográficos, econômicos e sociais, mas também, por elementos comportamentais, onde, por um lado, a auto-rejeição promove a necessidade de se parecer fisicamente com os brancos, no que diz respeito ao fenótipo, influenciando decisões de geração de prole, que perpassam por matrimônios com pessoas mais claras, com o intuito de "clarear" a família para melhorar as chances na vida. Isto tem referência na cultura popular através do termo "barriga limpa", genitora negra que dá à luz criança "clara", gerando assim, uma hierarquia das cores, onde, quanto mais clara, ou seja, mais parecida com o branco, melhor aceita, ou, mais tolerada e, por outro lado, a privação das aspirações promove nestes, uma idéia de existir um lugar pré-determinado para o negro no Brasil, de forma que não adianta lutar ou tentar ser ou fazer outra coisa, senão "aquilo" determinado pela sociedade para nós negros, refletido nos comportamentos das relações familiares que, impelidos a acreditar que profissões como as de médico, advogado, parlamentar, gestor público, cientista e todas que existem de prestigio social bem como as que virão a existir não são o nosso lugar, reproduzimos esses conceitos racistas inclusive na hora de escolhermos nossos representantes parlamentares e executivos, ao votarmos sempre em candidatos brancos, por entender que este é um lugar para brancos. O fato, é que a sociedade não admite que negros ocupem espaços historicamente reservados aos brancos e, os próprios negros, cerceados de aspirações, acreditam nisso.

Ainda acreditamos, impregnados pela ideologia racista, (que não está só nas mentes dos brancos), que o nosso lugar evolui da senzala vestido de trapos com trabalho escravo, para morar na favela vestido de trapos com subempregos.

Infelizmente, pessoas a serviço deste status quo, muitas vezes, negros que podemos comparar aos capitães do mato, impregnados da concepção racista, usados conceitualmente pelos brancos para garantir que nenhum negro se afastará da condição imposta pela sociedade branca racista, ou seja, não fugirá da senzala, conservam o discurso de que essa ou aquela vestimenta não é adequada a um negro, a exemplo de terno e gravata, vestimenta de origem européia, o que a partir daí também justifica dizer que estes (os negros) não devem ocupar espaços de representação política, pois também é "construção social" européia, bem como residir em bairros e casas com saneamento básico, energia e água encanada, ter veículo automotor, estudar em Universidades e se formarem em medicina, direito, docência etc., talvez porque também considerem invenções da sociedade moderna européia e, tudo contraria o sentido de "cultura afro". No fundo, são oprimidos que oprimem. São aqueles que, oprimidos e desprovidos de qualquer condição de dialogar a construção de uma sociedade mais justa e igualitária, se prestam ao papel de se subordinarem aos seus opressores, para oprimir aqueles que lhes são iguais, de forma que, mesmo tendo a tez preta, é capaz de negar tal condição, só pelo fato de poder sentar-se à mesa com os seus opressores, mesmo que uma vez na vida, em restaurantes caros, o que os fazem imaginar, nem que seja por aquele momento, "ser igual".

O lugar do negro deve ser o que ele escolher para estudar, trabalhar ou vestir, pois não deve existir a roupa do negro, o trabalho do negro, o bairro do negro. Deve existir, o espaço das pessoas, onde, independente da cor, esses acessos estejam devidamente garantidos para a escolha. Essas garantias perpassam pelas Ações Afirmativas, que visam a instituir medidas compensatórias, destinadas a promover o principio da equidade de forma a eliminar o racismo e permitir a participação efetiva da população negra na sociedade brasileira. Na educação superior, diversas universidade brasileiras já instituíram as cotas para as populações afro-descendente. A política quilombola constitui outra ação afirmativa para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos. Aos poucos e, de forma bem tímida, diversas ações são implementadas para responder aos anseios do povo negro, resultados esses, da intensa luta travada pelos movimentos sociais negros ao longo de décadas.

O lugar do negro deve ser Doutores(as), médicos(as), professores(as), cientistas, legisladores(as), prefeitos(as), governadores(as) e presidente(a). A roupa, que diferença faz?

Isac Afonso dos Santos Filho

Cresce o número de mulheres parlamentares na Bolívia

A Assembleia Lesiglativa Plurinacional da Bolívia inicia seus trabalhos com uma inédita participação feminina de 28%, e as legisladoras já começaram a batalhar para que as mulheres conquistem metade dos cargos do governo, da Justiça e no parlamento.

Um sinal do novo peso feminino foi a eleição, na terça-feira, de Ana María Romero como a primeira mulher na história parlamentar deste país andino a presidir o Senado, em uma escolha que o reeleito presidente Evo Morales destacou como um passo para a igualdade de gênero nos poderes públicos. A bicameral Assembleia Plurinacional é o novo Poder Legislativo que substitui o Congresso que funcionou por 184 anos, ao aplicar-se a Constituição em vigor há 11 meses e que reconstruiu o Estado boliviano, emanada de uma Assembleia Constituinte onde as mulheres tiveram 33% de participação.

Romero, da bancada do governante e esquerdista Movimento ao Socialismo (MAS), foi eleita por 35 dos 36 senadores, 10 dos quais são de oposição, o que evidenciou o consenso que causa esta veterana jornalista e primeira Defensora do Povo do país (1998-2003), outra qualidade ressaltada por Morales. Sua designação só tem o antecedente de Lídia Gueiler, que presidiu a Câmara de Deputados em 1979 e entre esse ano e 1980 ocupou a presidência interinamente.

A Assembleia inicia seus trabalhos na sexta-feira, coincidindo com o juramento de Morales, um dirigente indígena de 50 anos que governa o país há cinco. Já antes de se instalarem, as 46 novas legisladoras começaram a receber pressão das bases populares femininas para que cumpram uma agenda em favor da paridade entre os gêneros e que isso inclua a meta de ostentar metade dos cargos nos poderes do Estado, além de uma série de leis para melhorar a vida das mulheres.

Estas bases se agrupam em mais de 200 organizações que integram a Coordenadoria da Mulher, e manejam uma série de projetos elaborados por organizações sindicais, camponesas e feministas, que as 33 legisladoras do MAS já se comprometeram a impulsionar. As outras 13 legisladoras foram eleitas por três grupos opositores, em uma Assembleia de 166 cadeiras, das quais 115 pertencem ao MAS. Está formada por 36 senadores e 130 deputados, 65 eleitos por votação nominal direta e o restante pelas listas dos partidos.

As cadeiras ocupadas por mulheres serão, no conjunto, mais que o dobro das que ostentavam na última legislatura do Congresso, onde havia apenas 22 mulheres, 14% das 157 cadeiras bicamerais. A população boliviana chega a 10,4 milhões de pessoas, das quais pouco mais da metade são mulheres. A metade de seus habitantes se autodefinem como indígenas e 33,5% vivem em áreas rurais.

A batalha por seu lugarl

Uma mobilização denominada Mulheres Presentes na História trabalhou intensamente desde 2006 para impulsionar a presença feminina no Estado em reconstrução e seu primeiro êxito foi a alta presença feminina na Constituinte. Depois conseguiu inserir um critério de igualdade nas leis eleitorais, com a alternância de mulheres e homens nas listas partidárias para as eleições, que começou a vigorar na votação de dezembro. Porém, fracassou na nomeação e eleição dos esperados 50% de representantes femininas, por falta de apoio dos partidos políticos.

O salto na participação legislativa é fruto da pressão e ação das mais de 200 organizações, disse a responsável pela Incidência da Coordenadoria, Mônica Novillo, durante encontro entre organizações de mulheres e as novas legisladoras, no dia 14 de dezembro. Mas a gestão parlamentar por maiores direitos e igualdade na função pública ainda deve vencer a oposição de parlamentares com uma tradição patriarcal, alertou à IPS a deputada suplente pelo departamento de La Paz, Elizabeth Salguero.

Na legislatura anterior, Salguero ocupou a presidência da Comissão de Direitos Humanos e impulsionou uma lei contra a violência política a favor de mulheres eleitas para cargos municipais e nacionais. Mas seu projeto não obteve o consenso necessário. No entanto, as representantes da principal organização feminina e sindical, a Confederação Sindical de Mulheres Camponesas Indígenas Originárias da Bolívia "Bartolina Sisa", demandam uma composição equitativa em matéria de gênero no novo governo que Morales definirá no começo de fevereiro.

Em seu primeiro mandato, apenas quatro das 20 pastas ministeriais estiveram em mãos de mulheres, embora o presidente tenha se comprometido a aumentar o número no novo gabinete. Este pode ser o primeiro teste de qual é a resposta do Executivo às demandas das mulheres organizadas por maiores espaços de poder, com o avanço para a metade dos cargos de responsabilidade no aparelho estatal, na Justiça, nos municípios e departamentos. Isso propõe a agenda da Coordenadoria assumida pelas legisladoras.

"Mas, basicamente, sem educação não há direitos, produção ou defesa dos direitos humanos", disse à IPS enfaticamente Cristina Barreto, dirigente da Federação de "Bartolina Sisa", em La Paz. "Devemos garantir a educação plurinacional e em várias línguas", disse às mulheres legisladoras, das quais exigiu trabalho dia e noite "até acabar com a educação consumista e teórica", em consonância com o discurso de mudança de Morales.

"Nas áreas rurais, as meninas vão à escola até a terceira série e hoje todos devem ter oportunidade de terminar os estudos até o bacharelado", do contrário será impossível pensar em um desenvolvimento econômico e industrial, acrescentou. Barreto expôs várias formas de discriminação contra as mulheres. Denunciou que as adolescentes grávidas são expulsas da escola, "mas não o rapaz que a engravidou".

"Alguns empregadores impõem às trabalhadoras a assinatura de um compromisso de não engravidarem durante o período do contrato", mas esta situação deve mudar e o Estado deve dar compensações nos impostos para as empresas que tiverem maior quantidade de operárias e respeitarem seus direitos, disse à IPS Amália Coaquira. Coaquira integra a direção da Confederação Nacional de Trabalhadoras por Conta Própria da Bolívia, uma organização surgida para responder ao impacto das políticas de livre mercado aplicadas no país entre 1985 e 2005, que jogou milhares de mulheres no comércio informal para sua sobrevivência e de suas famílias.

Uma nova legislação trabalhista, que dê igualdade salarial para homens e mulheres, uma defesa contra o assédio sexual e profissional, a inclusão das autônomas nos benefícios da assistência social, e a valorização econômica do trabalho no lar, são os pontos propostos por Coquira às legisladoras. "A aposentadoria para as mulheres que trabalham em casa não é reconhecida e pensam que são longevas", reclamou.

A demanda por terra e o desejo das mulheres em terem títulos de propriedade é a bandeira da Confederação Nacional de Mulheres Indígenas da Bolívia e sua representante, Blanca Cartagena, colocou a questão entre as tarefas pendentes da Assembleia. O governo informou que, entre 2006 e 2009, foram entregues 10.299 títulos a mulheres pela propriedade de 164.401 hectares, mas Cartagena destacou a urgência de dar tratamento preferencial às chefes de família, em situação de abandono ou pobreza.

"Quero ações de maneira direta. Posso fazer muito e contribuir em várias linhas de desenvolvimento", disse à IPS com convencimento a deputada pelo departamento de Beni, Ingrid Zabala. Engenheira agrônoma, especializada em pesquisas sociais e agrícolas, Zabala quebrou um cerco político em uma das regiões mais conservadoras e reticentes à igualdade de gênero. Além de ser mulher, alinhou-se ao MAS, que encontra muita resistência na região.

Contra a violência e a discriminação, a favor da igualdade de direitos e pelo respeito aos recursos naturais, é o resumo de objetivos da parlamentar que já pôs à prova sua tenacidade em batalhas contra a corrupção, durante sua passagem pela docência na Universidade Autônoma do Beni José Ballivián. Contou que desde criança observa os diferentes rostos da discriminação, quando sua família a proibia de se relacionar com camponesas de pollera (saias étnicas), ou quando foi obrigada a mudar a capa de sua tese porque o título que pretendia era de engenheira e não de engenheiro.

Desde esta terceira semana de janeiro, as novas legisladoras bolivianas realizam um difícil caminho para continuarem liderando mudanças até agora apenas enunciadas na nova Constituição, e levá-las à prática.

Brasil vai comemorar Dia da Baiana de Acarajé

Os brasileiros passarão a comemorar também o Dia Nacional da Baiana de Acarajé. A celebração da data, definida para 25 de novembro, está formalizada em lei publicada na edição de hoje no Diário Oficial da União.
 

As vendedoras de acarajé - iguaria que tem como base a combinação de feijão fradinho e azeite de dendê, com recheio principal de camarão - já têm sua atividade regularizada profissionalmente.
 

Consideradas patrimônio cultural imaterial do Brasil, as baianas foram homenageadas com a inauguração do Memorial da Baiana de Acarajé, em 2009, na capital baiana Salvador. O ofício das baianas é registrado como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), do Ministério da Cultura.
 

Entre as principais figuras típicas do país, elas são representadas como quesito obrigatório (ala das baianas) em um das maiores manifestações culturais do mundo, o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro.

Caracterizadas com ojás na cabeça (espécie de turbante também chamado de torço), colares de fios-de-conta e longos vestidos brancos e armados, muitas das baianas são filhas ou mães de santo no candomblé, religião afrobrasileira.

Em setembro do ano passado, a Câmara aprovou de uma só vez 60 projetos que incluem no calendário o dia nacional do macarrão, do quadrilheiro, do reggae e do motorista de ambulância, entre outros, conforme mostrou o Congresso em Foco. As homenagens contrariam recomendação da Comissão de Educação e Cultura que pede "extrema cautela" em propostas.
 

Fonte: Blog Congresso em Foco

Em Pronunciamento na Câmara Luiz Alberto contesta Caetano Veloso e defende Lula

(O presidente desta sessão na Câmara dos Deputados era o deputado ACM Neto) 

 

Quero primeiro registrar a presença nesta Casa de vários trabalhadores, agentes comunitários de saúde e de combate às endemias, que estão acompanhando uma discussão importante na Comissão Especial que analisa a PEC n.º 391, de 2009. 


Com certeza absoluta, estamos apoiando esse projeto para que, quando chegue ao plenário, nós a votemos para dar condições dignas de vida a esses trabalhadores e também um atendimento mais qualificado à saúde básica do nosso País. 


Mas, Sr. Presidente, quero fazer um registro e lamentar que, no dia 5 de novembro, no jornal O Estado de S. Paulo, o compositor baiano Caetano Veloso, muito querido no País, deu uma declaração grosseira e preconceituosa a propósito do apoio à candidatura da Senadora Marina Silva, chamando o Presidente Lula de analfabeto e cafona. 


Sr. Presidente, várias personalidades do mundo artístico e da política se manifestaram contrariamente a essa declaração. 


Nesse fim de semana, em uma reunião no Recôncavo da Bahia, no Município onde ele nasceu, Santo Amaro da Purificação, a Direção Regional do Partido dos Trabalhadores, que aliás reúne 34 municípios, aprovou uma moção, Deputado Geraldo Simões, de repúdio à declaração do cantor Caetano Veloso. 


Estranhei muito o fato de ele expressar esse preconceito contra o Presidente da República, até porque aquela região do Recôncavo e sua cidade, que foi visitada pelo Presidente Lula quando da inauguração de uma unidade do IFET, recebeu Dona Canô, sua mãe, de forma carinhosa e respeitosa. Ela declarou diversas vezes o carinho que deposita no Presidente Lula. 


No entanto, é evidente que Caetano Veloso, além de artista, é um homem político, como todos somos. Ele tem suas definições políticas e ideológicas. Provavelmente tem saudade de um período em que inclusive foi perseguido, o da ditadura militar. Nós lutamos contra a ditadura e depositamos nossa solidariedade a Caetano Veloso e a diversos artistas perseguidos deste País. 


No entanto, após a derrubada da ditadura, o cantor Caetano Veloso insistentemente vem fazendo suas declarações, demonstrando de que lado se encontra, saudade talvez do período do carlismo na Bahia, que não mais existe. 


Portanto, deixo esta mensagem, registrando a moção aprovada pela Regional do Recôncavo, do Partido dos Trabalhadores, contra essa declaração grosseira, insisto, do cantor Caetano Veloso, contra o Presidente Lula. 


Assim que ela chegue a esta Casa, gostaria que fosse inserida nos Anais, como forma de manifestação daquele povo educado e elegante do Recôncavo.

Infelizmente, só um membro daquele povo destoou da característica do povo do Recôncavo, que é na verdade a matriz cultural do Estado da Bahia. Foi lá que Caetano aprendeu; foi lá que Caetano bebeu; foi lá que o Gilberto Gil disse que recebeu a régua e o compasso para ser o que é hoje no Brasil. 


Portanto, Caetano recebe o repúdio daquela região da Bahia - o Recôncavo, que é matriz cultural afrobaiana e afrobrasileira e que demonstra essa característica para todo o Brasil. 


Muito obrigado, Sr. Presidente.

MST: Esclarecimentos sobre os últimos episódios veiculados pela mídia

Diante dos últimos acontecimentos veiculados pela mídia brasileira, o MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Teto (MST) divulgou no inicio do mês uma nota de esclarecimento.

Confiram na integra a nota de esclarecimento:

Diante dos últimos episódios que envolvem o MST e vêm repercutindo na mídia, a direção nacional do MST vem a público se pronunciar.

1. A nossa luta é pela democratização da propriedade da terra, cada vez mais concentrada em nosso país. O resultado do Censo de 2006, divulgado na semana passada, revelou que o Brasil é o país com a maior concentração da propriedade da terra do mundo. Menos de 15 mil latifundiários detêm fazendas acima de 2,5 mil hectares e possuem 98 milhões de hectares. Cerca de 1% de todos os proprietários controla 46% das terras.

2. Há uma lei de Reforma Agrária para corrigir essa distorção histórica. No entanto, as leis a favor do povo somente funcionam com pressão popular. Fazemos pressão por meio da ocupação de latifúndios improdutivos e grandes propriedades, que não cumprem a função social, como determina a Constituição de 1988.

A Constituição Federal estabelece que devem ser desapropriadas propriedades que estão abaixo da produtividade, não respeitam o ambiente, não respeitam os direitos trabalhistas e são usadas para contrabando ou cultivo de drogas.

3. Também ocupamos as fazendas que têm origem na grilagem de terras públicas, como acontece, por exemplo, no Pontal do Paranapanema e em Iaras (empresa Cutrale), no Pará (Banco Opportunity) e no sul da Bahia (Veracel/Stora Enso). São áreas que pertencem à União e estão indevidamente apropriadas por grandes empresas, enquanto se alega que há falta de terras para assentar trabalhadores rurais sem terras.

4. Os inimigos da Reforma Agrária querem transformar os episódios que aconteceram na fazenda grilada pela Cutrale para criminalizar o MST, os movimentos sociais, impedir a Reforma Agrária e proteger os interesses do agronegócio e dos que controlam a terra.

5. Somos contra a violência. Sabemos que a violência é a arma utilizada sempre pelos opressores para manter seus privilégios. E, principalmente, temos o maior respeito às famílias dos trabalhadores das grandes fazendas quando fazemos as ocupações. Os trabalhadores rurais são vítimas da violência. Nos últimos anos, já foram assassinados mais de 1,6 mil companheiros e companheiras, e apenas 80 assassinos e mandantes chegaram aos tribunais. São raros aqueles que tiveram alguma punição, reinando a impunidade, como no caso do Massacre de Eldorado de Carajás.

6. As famílias acampadas recorreram à ação na Cutrale como última alternativa para chamar a atenção da sociedade para o absurdo fato de que umas das maiores empresas da agricultura - que controla 30% de todo suco de laranja no mundo - se dedique a grilar terras. Já havíamos ocupado a área diversas vezes nos últimos 10 anos, e a população não tinha conhecimento desse crime cometido pela Cutrale.

7. Nós lamentamos muito quando acontecem desvios de conduta em ocupações, que não representam a linha do movimento. Em geral, eles têm acontecido por causa da infiltração dos inimigos da Reforma Agrária, seja dos latifundiários ou da policia.

8. Os companheiros e companheiras do MST de São Paulo reafirmam que não houve depredação nem furto por parte das famílias que ocuparam a fazenda da Cutrale. Quando as famílias saíram da fazenda, não havia ambiente de depredações, como foi apresentado na mídia. Representantes das famílias que fizeram a ocupação foram impedidos de acompanhar a entrada dos funcionários da fazenda e da PM, após a saída da área. O que aconteceu desde a saída das famílias e a entrada da imprensa na
fazenda deve ser investigado.

9. Há uma clara articulação entre os latifundiários, setores conservadores do Poder Judiciário, serviços de inteligência, parlamentares ruralistas e setores reacionários da imprensa brasileira para atacar o MST e a Reforma Agrária. Não admitem o direito dos pobres se organizarem e lutarem.

Em períodos eleitorais, essas articulações ganham mais força política, como parte das táticas da direita para impedir as ações do governo a favor da Reforma Agrária e “enquadrar” as candidaturas dentro dos seus interesses de classe.

10. O MST luta há mais de 25 anos pela implantação de uma Reforma Agrária popular e verdadeira. Obtivemos muitas vitórias: mais de 500 mil famílias de trabalhadores pobres do campo foram assentados.
Estamos acostumados a enfrentar as manipulações dos latifundiários e de seus representantes na imprensa.

À sociedade, pedimos que não nos julgue pela versão apresentada pela mídia. No Brasil, há um histórico de ruptura com a verdade e com a ética pela grande mídia, para manipular os fatos, prejudicar os trabalhadores e suas lutas e defender os interesses dos poderosos.

Apesar de todas as dificuldades, de nossos erros e acertos e, principalmente, das artimanhas da burguesia, a sociedade brasileira sabe que sem a Reforma Agrária será impossível corrigir as injustiças sociais e as desigualdades no campo. De nossa parte, temos o compromisso de seguir organizando os pobres do campo e fazendo
mobilizações e lutas pela realização dos direitos do povo à terra, educação e dignidade.

São Paulo, 9 de outubro de 2009

DIREÇÃO NACIONAL DO MST

Discurso de Luiz Alberto na Câmara Federal sobre a Cláusula 4º

Desde 1995, o Supremo Tribunal Federal está para julgar a Convenção Coletiva de Trabalho dos trabalhadores do Polo Petroquímico da Bahia que diz respeito à Cláusula 4º daquele acordo, que estabelecia que, na ausência de lei que discipline os reajustes salariais, as empresas teriam que corrigir os salários de seus funcionários no percentual correspondente a 90% do Índice de Preço ao Consumidor (IPC) do mês anterior, ou outro índice oficial que viesse a substituí-lo.
No entanto, Sr. Presidente, há 12 anos que essa ação corre no Supremo Tribunal Federal. Na última semana entrou na pauta, mas não foi votado.
Queremos pedir ao Supremo que vote e julgue imediatamente essa Convenção Coletiva. Muitos desses trabalhadores já faleceram, e suas famílias esperam que o Supremo a julgue.
Sr. Presidente, Sras. e Srs. Parlamentares, hámais de 20 anos, trabalhadores e trabalhadoras do setor químico lutam pelo cumprimento de uma Convenção Coletiva ratificada em setembro de 1989 pelo antigo SINDIQUÍMICA/BA (Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias e Empresas Petroquímicas, Químicas Plásticas e afins do Estado da Bahia) e pelo SINPER (Sindicato da Indústria Petroquímica e de Resinas Sintéticas no Estado da Bahia).
Nesta convenção, a CLÁUSULA 4ª determinava que “na ausência de Lei que discipline os reajustes salariais, as empresas teriam que corrigir os salários de seus funcionários, no percentual correspondente a 90% do Índice de Preço ao Consumidor (IPC) do mês anterior, ou outro índice oficial que viesse a substituí-lo, complementando a diferença entre a correção monetária e o índice acumulado, sempre que o resíduo atingisse os 15%”.
A Convenção também deixava claro que “as empresas teriam de manter a política convencionada nesta cláusula na hipótese de nova lei que introduza política salarial menos favorável”.
Em 1990 começa essa batalha que se estende até hoje, pois a cláusula só foi cumprida até março de 90. Em fevereiro daquele ano a inflação chegou a 84.32%, o que implicaria no reajuste mínimo a ser concedido, gravitandoem torno de 75.88%. Acontece que o reajuste não foi repassado. Então, a cláusula 4ª é a dívida, com juros e correção monetária, que os empresários têm com os trabalhadores (que laboravam naquelas empresas quando do descumprimento da convenção). A dívida prejudicou cerca de 20 mil trabalhadores da categoria.
Desde 1990, o SINDIQUÍMICA mobilizou-se para que as empresas cumprissem a Convenção, entrando com uma ação junto à Justiça Trabalhista, para que fosse garantido o direito do trabalhador.
Em 1995 a ação passou a tramitar no STF (Superior Tribunal Federal) e a categoria ainda aguarda a data da audiência que determinará o termo final da questão.
Em novembro de 2002, a 2ª turma do STF aprecia embargos declaratórios do patronato. O Ministro Carlos Veloso julga favorável aos trabalhadores. O Ministro Gilmar Mendes pede vistas ao processo. Em junho de 2003, o Ministro Nelson Jobim pediu vistas do processo.
Em fevereiro de 2006, o Ministro Sepúlveda Pertence proferiu despacho favorável e o processo foi indicado para julgamento no Plenário do STF.
Em junho de 2007 acontece o julgamento no Plenário do STF. O Ministro Relator dá voto favorável aos trabalhadores (1x 0) e o Ministro Gilmar Mendes, novamente, pede vistas ao processo.
Em outubro de 2007, continua o julgamento no STF. O Ministro Marco Aurélio pediu vistas ao processo.
Em 25 de outubro de 2007, continua o julgamento no Plenário do STF, o Ministro Marco Aurélio Mello proferiu um voto histórico, no qual recuperou toda a história do processo e terminou por acompanhar a posição do Relator, Ministro Sepúlveda Pertence, em favor dos trabalhadores (2×1). O Ministro Ricardo Lewandowski pediu vistas do processo.
Em 29 de junho de 2009 o processo foi liberado pelo gabinete do Ministro Ricardo Lewandowski e foi à Secretaria do Plenário do STF. A inclusão do processo em pauta depende do Presidente do Tribunal, Gilmar Mendes. Em 08 de outubro de 2009 o julgamento da cláusula 4ª foi marcado pelo Supremo Tribunal Federal, mas não aconteceu.
Registro o importante trabalho do Sindicato dos Químicos e Petroleiros da Bahia, que há mais de 20 anos luta por este direito dos trabalhadores, sem jamais esmorecer ou desistir. A cada julgamento, a entidade organiza vigílias, comissões para acompanhar em Brasília e na Bahia, as transmissões das sessões pela TV. Ao longo deste período aconteceram muitas mobilizações foram feitas e até greves realizadas com esta importante pauta.
É válido lembrar que algumas empresas já reconheceram o direito do trabalhador e pagaram o passivo. Um exemplo recente foi o da Rhodia que, através de um acordo, quitou a sua dívida com os trabalhadores. O pagamento da Cláusula 4ª é um direito do trabalhador e um dever dos patrões. Esperamos que o Supremo Tribunal Federal faça justiça o mais rápido possível. Vou continuar acompanhando esse processo e apoiando trabalhadores e trabalhadoras.

Muito obrigado!

Luiz Alberto
Deputado Federal (PT/BA)

Participe do Fela Day 2009

NOTA DE DIVULGAÇÃO

O Fela Day é uma realidade e já está nas ruas: no Boletim do Kaos, nos blogs, nos flyers, rádios saraus, etc. Muita coisa bacana vai acontecer tanto de nós, que fizemos algum contato anterior, quanto de outros guerreiros que descubro a cada dia também desenvolverão ações em celebração ao Dia deste Leão Indomável da África que Incomoda! .

Estou tentando reunir o máximo desse material de divulgação e reflexão num blog que crei especificamente para o Fela Day. Se tiverem na disposição e puderem, dêem uma olhada no www.feladaybrasil.blogspot.com.

Quem tiver material sobre qualquer ação própria ou de parceiros - sobre o Fela Day - manda pra gente informar lá. Manda também complementos do que já tá publicado no blog: fotos, release, texts, etc. Dia 15 de outubro, quinta-feira próxima, será lançado oficalmente o site da peça Musical Fela na Brodway. A peça entra no circuito dia 25 de outubro nos EUA.

O professor Carlos Moore, que foi amigo, e é biógrafo autorizado de Fela Kuti, escreveu um texto inédito para abertura o site do Fela - Broadway. Não é longo: são 4 páginas localizando este gênio indomável da África.

O professor me autorizou a providenciar uma boa tradução para o Português e depois disponibilizá-la aos parceiros da Articulação Nacional Fela kuti e também a todos os interessados em ingressar nesta frente pró-Fela.

A idéia é publicarmos o texto traduzido, simultaneamente, em qualquer suporte possível, no dia 15 de outubro, paralelamente ao badalado lançamento do referido site.

O texto já está em mãos de uma excelente conhecedora do inglês, Irê, que é uma negona soteropolitana competente e militante, e deve estar pronto na quarta, a tempo de bombardearmos a net e outros meios, exatamente, no dia do Fela Day - 15 de outubro (quinta).

Quem topa participar dessa corrente?

Quem topa nos ajudar a contactar outros blogs, sites, jornais, etc, para disseminar Fela, o Pan-africanismo e o Afrobeat?

Segue, também, os flyers que chegaram até mim e estão postados no www.feladaybrasil.blogspot.com
Vamos divulgá-los também em nossos blogs, sites, listas e afins.

Quem já tem material pronto e não mandou ainda, se for a fim, pode mandar para divulgarmos no site Fela Day Brasil! O enredereço melhor para isso é o blackitude@gmail.com

Este movimento está ganhando o mundo e o Brasil não pde entrar simplemente pelo lado mítico ou midiático-comercial que deve tomar em parte! Nós podemos estar no lado critco e da diversão consciente!

Fonte: Nelson Maca - Blackitude.Ba

Lei Orgânica da Defensoria Pública

Discurso do Deputado Federal Luiz Alberto*
 
(…) O Projeto de Lei Complementar n°137/09, proposto pelo Poder Executivo, reformula a lei orgânica da Defensoria Pública e reorganiza as Defensorias Públicas dos Estados, da União, do Distrito Federal e Territórios.
O Senado Federal aprovou no dia 16 de setembro último, o PLC 137/09 e também todas as emendas de consenso. A nova lei deverá contemplar a esmagadora maioria da população brasileira, já que a Defensoria Pública é voltada aos cidadãos e cidadãs que recebem até 3 salários mínimos, ou seja, 80% da população.

Os senadores aprovaram todas as emendas e o PLC 137/2009 foi aprovado, seguindo agora para a sanção presidencial. A partir da sanção desse Projeto de Lei, a Defensoria Pública será a única instituição do Sistema de Justiça com Ouvidoria Externa dentre as novas configurações na reforma da Lei Orgânica da Defensoria Pública, o texto que seguiu para sanção da Presidência da República determina que a atuação do órgão será descentralizada, priorizando as regiões “com maiores índices de exclusão e adensamento populacional”.

A defesa dos direitos fundamentais deverá acontecer de forma especial em relação a crianças, adolescentes, idosos, pessoas com deficiências e mulheres vítimas de violência doméstica ou familiar.

O projeto permite que o órgão promova concursos e nomeie defensores e funcionários com mais rapidez. Atualmente, a instituição é a menos estruturada da Justiça brasileira. Há falta de defensores em cerca de 60% das comarcas do país.

O projeto tem características singulares: regulamenta a autonomia funcional, administrativa e orçamentária da instituição; democratiza e moderniza sua gestão (permitindo, por exemplo, planejamentos na estrutura de pessoal para o atendimento ao público); e cria mecanismos de participação da sociedade civil em sua estrutura de funcionamento, através da Ouvidoria Geral das Defensorias Públicas, a ser ocupada por representação da sociedade civil. Hoje, os Estados de São Paulo e da Bahia são os únicos no país a já adotarem este modelo.

Além disso, entre as novas funções da Defensoria Pública está a de incentivar a solução extrajudicial dos litígios - ou seja, por meio de mediação, conciliação e outras formas de composição entre as partes. Será igualmente função da Defensoria “promover a difusão e a conscientização dos direitos humanos, da cidadania e do ordenamento jurídico”.

Existem no Brasil cerca de 43 milhões de processos aguardando julgamento, e a demora pode resultar no aniquilamento do direito do cidadão, principalmente dos mais pobres. Por isso, a Defensoria Pública precisa se especializar na busca de soluções não judiciais para os litígios.

Com a nova lei, o Defensor Público disporá de melhores instrumentos para defender interesses individuais, coletivos e de grupos sociais vulneráveis que mereçam proteção especial do Estado. Entre outros avanços, prevê a criação da Ouvidoria-Geral da Defensoria Pública dos estados, que será exercida por pessoa de fora dos quadros da carreira, escolhida pelo Conselho Superior, a partir de lista tríplice elaborada pela sociedade civil.

Ainda segundo o projeto, a Defensoria Pública deve atuar junto a estabelecimentos policiais, penitenciários e de internação de adolescentes. E pode acompanhar inquéritos, com a ciência da comunicação imediata da prisão em flagrante, quando o detento não constituir advogado.

O PLC 137/2009 vai fortalecer a Defensoria Pública no Brasil. O Presidente Lula deve sancionar a lei nesta quarta-feira. Este é um grande avanço para o acesso à justiça em nosso país.

Muito obrigado!
*Discurso feito no Plenário da Câmara dos Deputados, em 07/10/2009.

Cabelo oprimido é um teto para o cérebro

Por Alice Walker

Como muitos de vocês devem saber, fui aluna desta faculdade, há muitas luas. Eu me sentava nessas mesmas cadeiras (às vezes ainda com o pijama sob o casaco) e olhava para a luz que entra por estas janelas. Eu ouvia dezenas de palestras encorajadoras e cantei e ouvi música maravilhosa. Acho que sentia que ia voltar para falar deste lado do pódio. Acho que naquele tempo, quando eu estudava aqui, adolescente ainda, eu já pensava no que diria a vocês, hoje.

Talvez os surpreenda saber que não pretendo falar (talvez até o período de perguntas e respostas) sobre guerra e paz, economia, racismo ou sexismo, ou sobre os triunfos e atribulações dos negros ou das mulheres. Nem sobre filmes. Embora os mais atentos possam ouvir em minhas palavras a preocupação por alguns desses assuntos, vou falar sobre algo muito mais perto de nós. Vou falar sobre cabelo. Não se preocupem com o estado dos seus cabelos neste momento.
Não fiquem alarmados. Não se trata de uma avaliação. Simplesmente quero compartilhar com vocês algumas experiências com nosso amigo cabelo, e espero entreter e divertir a todos.

Durante um longo tempo, desde a primeira infância até a idade adulta crescemos física e espiritualmente (incluindo o intelecto com o espírito), sem que nos demos muito conta do fato. Na verdade, alguns períodos do nosso crescimento são tão confusos, que nem percebemos que se trata de crescimento. Podemos nos sentir hostis, zangados, chorosos ou histéricos, ou deprimidos. Jamais nos ocorre, a não ser que encontremos por acaso um livro ou uma pessoa capaz de explicar, que estamos em processo de mudança, de crescimento espiritual. Sempre que crescemos, sentimos, como a semente nova deve sentir o peso e a inércia da terra, quando procura sair da casca para se transformar numa planta. Geralmente não é uma sensação agradável. Porém, o mais desagradável é não saber o que está acontecendo. Lembro-me das ondas de ansiedade que me envolviam nos diferentes períodos de minha vida, sempre se manifestando por meio de distúrbios físicos (insônia, por exemplo) e como eu ficava assustada, porque não entendia como aquilo era possível.

Com a idade e a experiência, vocês ficarão satisfeitos em saber, o crescimento torna-se um processo consciente e reconhecido. Ainda um pouco assustador, mas pelo menos compreendido. Aqueles longos períodos, quando algo dentro de nós parece estar esperando, contendo a respiração, sem saber qual será o próximo passo, com o tempo transformam-se em períodos esperados, pois enquanto ocorrem, compreendemos que estamos sendo preparados para a próxima fase da nossa vida e que provavelmente vai se revelar um novo nível de personalidade.

Alguns anos atrás passei por um longo período de inquietação, disfarçado em imobilidade. Isto é, isolei-me do grande mundo a favor da paz do meu mundo pessoal, muito menor. Eu me desliguei da televisão e dos jornais (um grande alívio!), dos membros mais perturbadores da minha grande família, e da maioria dos amigos. Era como se eu tivesse chegado a um teto no meu cérebro. E sob esse teto minha mente estava extremamente inquieta, embora tudo em mim estivesse calmo.

Como é comum nesses períodos de introspecção, contei as contas do meu progresso neste mundo. No relacionamento com a família e os antepassados eu agira respeitosamente (nem todos concordarão, acredito); no meu trabalho eu havia feito, usando toda a habilidade de que disponho, tudo que era exigido de mim; no relacionamento com as pessoas com quem convivo diariamente, eu agira com todo amor que podia encontrar no meu íntimo, Eu começava também, finalmente, a reconhecer minha responsabilidade para com a Terra c minha adoração do Universo. O que mais então eu devia fazer? Por que, quando eu meditava e procurava o alçapão de escape no alto do meu cérebro, o qual, nos outros estágios do crescimento, eu sempre tive a sorte de encontrar, só achava agora um teto, como se o caminho para me identificar com o infinito, o caminho que eu costumava trilhar, estivesse selado?

Certo dia, depois de ter feito ansiosamente essa pergunta durante um ano, ocorreu-me que, no meu ser físico, havia uma última barreira para minha libertação espiritual, pelo menos naquela fase: meu cabelo.

Não meu amigo cabelo propriamente, pois logo percebi que ele era inocente. O problema era o modo pelo qual eu me relacionava com ele. Eu estava sempre pensando nele. Tanto que, se meu espírito fosse um balão, ansioso para voar e se confundir com o infinito, meu cabelo seria a pedra que o ancoraria à Terra. Compreendi que seria impossível continuar meu desenvolvimento espiritual, impossível o crescimento da minha alma, impossível poder olhar para o Universo e esquecer meu ego completamente nesse olhar (uma das alegrias mais puras!) se continuasse presa a pensamentos sobre meu cabelo. Compreendi de repente porque freiras e monges raspam as cabeças!

Olhei no espelho e comecei a rir de felicidade! Tinha conseguido abrir a pele da semente e estava subindo dentro da terra.

Então comecei as experiências. Durante alguns meses usei longas tranças (era moda entre as mulheres negras na época) feitas com o cabelo de mulheres coreanas. Eu adorava isso. Realizava minha fantasia de ter cabelos longos e dava ao meu cabelo curto e levemente processado (oprimido) a oportunidade de crescer. A jovem que trançava meu cabelo era uma pessoa que eu acabei adorando - uma jovem mãe lutadora; ela e a filha chegavam à minha casa às sete da noite e conversávamos, ouvíamos música, comíamos pizzas ou burritos, enquanto ela trabalhava, até uma ou duas horas da manhã. Eu adorava o artesanato dos desenhos criados por ela para a minha cabeça. (Trabalho de cesteiro! exclamou uma amiga, tocando a teia intrincada na minha cabeça.) Eu adorava sentar entre os joelhos dela como sentava entre os joelhos de minha mãe e de minha irmã enquanto elas trançavam meu cabelo, quando eu era pequena. Eu adorava o fato do meu cabelo crescer forte e saudável sob as "extensões", coma eram chamadas as tranças.

Eu adorava pagar a uma jovem irmã por um trabalho realmente original e que fazia parte da tradição do penteado dos negros. Eu adorava o fato de não precisar tratar do meu cabelo a não ser com intervalos de dois ou três meses (pela primeira vez na vida eu podia lavar a cabeça todos os dias, se quisesse, e não fazer nada mais). Porém, uma vez ou outra as tranças tinham de ser retiradas (um trabalho de quatro a sete horas) e feitas novamente (mais sete a oito horas); também eu não me esquecia das mulheres coreanas que, de acordo com minha jovem cabeleireira, deixavam crescer o cabelo expressamente para vender. É claro que essa informação me fez pensar (e, sim, me preocupar) sobre os outros aspectos de suas vidas.

Quando meu cabelo atingiu dez centímetros de comprimento, dispensei o cabelo das minhas irmãs coreanas e trancei o meu. Só então renovei o conhecimento com suas características naturais. Descobri que era flexível, macio reagindo quase com sensualidade à umidade. Com as pequenas tranças girando para todos os lados, menos para onde eu queria que virassem, descobri que meu cabelo era voluntarioso, exatamente como eu! Vi que meu amigo cabelo, tendo recuperado vida própria, tinha senso de humor. Descobri que eu gostava dele.

Mais uma vez na frente do espelho, olhei para minha imagem e comecei a rir. Meu cabelo era uma dessas criações estranhas, incríveis, surpreendentes, de parar o tráfego - um pouco parecido com as listras das zebras, com as orelhas do tatu ou os pés azul-elétrico do mergulhão - que o universo cria sem nenhum motivo especial a não ser demonstrar sua imaginação ilimitada. Compreendi que jamais tivera a oportunidade de apreciar o cabelo em sua verdadeira natureza. Descobrir que ele, na verdade, tinha uma natureza própria. Lembrei-me dos anos que passei agüentando cabeleireiros - desde o tempo de minha mãe - que faziam trabalho missionário nos meus cabelos. Eles dominavam, suprimiam, controlavam. Agora, mais ou menos livre, ele ficava todo espetado para todos os lados. Eu telefonava para todos meus amigos no país para relatar as travessuras do meu cabelo. Ele jamais pensava em ficar deitado. Deitar de costas, na posição missionária, não o interessava. Ele cresceu. Ficar curto, cortado quase até a raiz, outra "solução" missionária, também não o interessava. Ele procurava espaços cada vez maiores, mais luz, mais dele mesmo. Ele adorava ser lavado; mas isso era tudo.

Finalmente descobri exatamente o que o cabelo queria: queria crescer, ser ele mesmo, atrair poeira, se esse era seu destino, mas queria ser deixado em paz por todos, incluindo eu mesma, os que não o amavam como ele era. O que acham que aconteceu? (Além disso, agora eu podia, como um bônus adicional, compreender Bob Marley como o místico que suas músicas diziam que era). O teto no alto do meu cérebro abriu-se; mais uma vez minha mente (e meu espírito) podia sair de dentro de mim. Eu não estaria mais presa à imobilidade inquieta, eu continuaria a crescer. A planta estava acima do solo.

Essa foi a dádiva do meu crescimento, no meu quadragésimo ano. Isso e saber que enquanto existir alegria na criação haverá sempre novas criações para descobrir, ou redescobrir, e que o melhor lugar para olhar é dentro de nós mesmos. Que a própria morte, sendo parte da vida, deve oferecer pelo menos um momento de prazer.

Fiz esta palestra no Dia dos Fundadores, 11 de abril de 1987, no Spelman College, Atlanta

 
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